Corte do Diretor: Wong Kar-Wai
A série de posts "Corte do Diretor" em seu primeiro blogpost visita o diretor chinês Wong Kar-Wai. Falamos um pouco de sua história, contexto com artísta, influêcia e obra. Post n° 4.
Frederico Brade
3/28/20238 min read


A essa altura, o diretor já começava a ser notado pelo mundo por seu estilo diferente de se fazer cinema. Também em 1994, Wong Kar-Wai dirigiu “Amores Expressos”, que o destacou internacionalmente e lhe rendeu o apelido de “Tarantino Chinês” e, posteriormente, em 1995, realizou “Felizes Juntos”, que lhe trouxe o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes. Em seguida, fez “Amor à Flor da Pele”, em 2000, filme que é, provavelmente, seu trabalho mais famoso e que rendeu o prêmio de Melhor Ator para Tony Leung em Cannes, além do César de Melhor Filme Estrangeiro e de uma indicação ao BAFTA de Melhor Filme Estrangeiro. Em 2004, dirigiu o filme “2046 – Os Segredos do Amor”, fechando a trilogia do “Eterno Feminino” (composta, também, pelos anteriores “Dias Selvagens” e “Amor à Flor da Pele”). Com carreira e reconhecimento internacional já consolidados, Kar-Wai presidiu o júri do Festival de Cannes em 2006 e, no ano seguinte, fez seu primeiro filme nos Estados Unidos chamado “Um Beijo Roubado”, com Jude Law, Natalie Portman, Rachel Weisz e Norah Jones. Seu longa-metragem mais recente é “O Grande Mestre”, de 2013, sobre a história de um dos grandes mestres do Kung Fu e mestre de Bruce Lee, Ip Man. Dentre as principais premiações do Cinema, os filmes de Wong Kar-Wai acumulam quatro indicações à Palma de Ouro, uma indicação ao BAFTA, uma ao Festival de Berlim, duas indicações ao Oscar e três indicações ao Independent Spirit Awards, além de dezenas de indicações em outros festivais e premiações ao redor do mundo.
Os filmes de Wong Kar-Wai são visualmente impactantes e há a presença de uma estranheza intrigante que paira pela obra. O diretor é preciso em algo tão difícil de se fazer no cinema: construir um tom único que se assume como assinatura do artista. Isso não é atingido, apenas, pela utilização da técnica “stack print” (multiplicação de alguns frames para dar a sensação de tempo distorcido), nem pela direção de fotografia de Christopher Doyle (parceria de Kar-Wai em “Anjos Caídos”, “Felizes Juntos”, “Amores Expressos”, “Amor à Flor da Pele”, “2046 – Os Segredos do Amor”), mas pelas histórias contadas. A cidade de Hong Kong e a década de 1960 (representada no tempo em que a história é contada ou na trilha sonora) são personagens de destaque na filmografia do diretor, abraçando dinâmicas pessoais e amorosas das demais personagens. Além disso, o diretor também possui como marcas de seu trabalho finais abstratos, ambíguos e abruptos, deixando a interpretação para o espectador.
Wong Kar-Wai é um renomado diretor chinês nascido em 17 de julho 1958 na cidade de Xangai e, ainda criança, se mudou com a família para a cidade de Hong Kong. Foi nessa época que Kar-Wai passou a ter um grande contato com o Cinema; por não dominar o dialeto de Hong Kong, sua mãe o levava constantemente ao cinema para aumentar sua exposição ao novo idioma. Se formou em Artes Gráficas pela Escola Politécnica de Hong Kong e, posteriormente, começou a carreira como assistente de produção na televisão para, mais tarde, se tornar argumentista de séries e filmes na área. Ingressou na indústria cinematográfica após se juntar à equipe criativa de Barry Wong, um dos maiores roteiristas de Hong Kong, e, depois, colaborou com o roteiro do filme de ação de Hong Kong The Final Victory (1987), dirigido por Patrick Tam.
Wong Kar-Wai é considerado, juntamente com outros realizadores como Eddie Fong, Stanley Kwan e Clara Law, pertencente ao movimento “Segunda Nova Onda” do cinema de Hong Kong. A “Nova Onda” surgiu na década de 1970 com novos diretores revolucionando o modo de fazer cinema, negando o aspecto comercial do cinema e trazendo visões mais artísticas e experimentais, além de abordar a sociedade contemporânea de Hong Kong, ao invés da China continental. A “Segunda Onda”, a qual Kar-Wai pertence, surge em meados da década de 1980 e conserva o experimentalismo da Primeira, mas traz visuais marcantes e um retorno aos anos 1960 - dois aspectos muito presentes no cinema do diretor. O cinema do movimento “Nova onda de Hong Kong” é uma síntese da influência cultural entre a Grã Bretanha, Hong Kong e A China continental. As sementes do movimento vieram do sucesso de filmes do gênero Kung Fu nos anos 70, do impacto da guerra do Vietnam, e também pelo grande aumento da popularidade do movimento chamado “Nova Hollywood”. Em Hong Kong há uma grande variedade de pessoas de outras nacionalidades da Ásia, pessoas vindas da Índia, Vietnam, Filipinas, Japão, Koreia, etc. Até o idioma falado na cidade é diferente do resto da China, uma mistura entre inglês, mandarim e cantonês. A população consome filmes americanos, joga jogos do tipo Arcarde vindos do Japão e até o governo e a moeda usada são diferentes. Isso tudo se da devido ao controle da Grã Bretanha durante 150 anos da area hoje conhecida como Hong Kong. Todas essas diferenças culturais e influências de outras culturas ajudaram a moldar o movimento.


Kar-Wai dirigiu seu primeiro filme, “Conflito Mortal” em 1988, baseado em um de seus roteiros, e, dois anos depois, dirigiu seu segundo longa-metragem, chamado “Dias Selvagens”, que não deu o retorno financeiro esperado pela produtora, que havia investido pesado em atores famosos para a produção - nesse filme, Kar-Wai trabalhou com grandes nomes como Maggie Cheung e Leslie Cheung. Apesar do fracasso comercial, o filme foi bem aceito pela crítica.
Em 1994, ele realiza “Cinzas do Passado”, também com um grande elenco: Brigitte Lin, Tony Leung, Jacky Cheung e os já citados Maggie Cheung e Leslie Cheung - todos são atores recorrentes nas obras no diretor . O filme venceu o prêmio de Melhor Fotografia no Festival de Veneza e também ganhou quatro prêmios no Festival de Cinema de Hong Kong (Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia, Melhor Figurino e Melhor Maquiagem) e mais dois prêmios no Festival de Cinema Cavalo Dourado de Taiwan (Melhor Fotografia e Melhor Edição).
Wong Kar-Wai aborda em sua filmografia os conceitos de “Mundo Líquido” e, principalmente, de “Amor Líquido” do sociólogo polonês Zigmunt Bauman, onde afirma que com o consumismo em ascensão na cultura mundial e as relações menos físicas através das redes sociais, alterou-se a forma como lidamos com nossas relações e elas se tornaram um amor líquido. “Líquido” porque muda rapidamente, porque se faz da forma daquilo que o carrega e que, se nada externo o sustentar, ele escorre, evapora, vai embora. Segundo Bauman, em trecho de uma entrevista colocado no vídeo “Wong Kar-Wai, o Amor Líquido e o tempo”, do canal Cinemascope,
“As relações humanas são uma benção e uma maldição. Benção porque é realmente muito prazeroso, muito satisfatório, ter outro parceiro em quem confiar e fazer algo por ele ou ela. É um tipo de experiência indisponível para a amizade no Facebook; então, é uma bênção. [...] Por outro lado, há a maldição, pois quando você entra no laço você espera ficar lá para sempre. Você jura, faz um juramento: até que a morte nos separe para sempre. O que isso significa? Significa que você empenha o seu futuro. Talvez amanhã, ou no mês que vem, ou no ano que vem, haja novas oportunidades. Agora você não consegue prevê-las e você não será capaz de pegar essas oportunidades, porque você ficará preso aos seus antigos compromissos, às suas antigas obrigações. Então, é uma situação muito ambivalente e, consequentemente, um fenômeno curioso dessa pessoa solitária numa multidão de solitários. Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo.” (BAUMAN, Zigmunt, ano?, CINEMASCOPE, grifo nosso).

Os amores de Wong Kar-Wai traduzem bem a fala de Bauman e a sentença por nós destacada em negrito: são pessoas solitárias, refugiadas em relacionamentos amorosos ambivalentes e perdidas na multidão de Hong Kong. O amor é o momento vivido e eternizado pelo casal, sem saber o futuro.
Além do “amor líquido” vivido pelos personagens de Kar-Wai, destaca-se também o tempo - ou “controle” dele - em seus filmes e dinâmicas dos personagens. Os frames lentos, quase congelados, fazem parte da marca do diretor, que busca, assim, enfatizar momentos importantes da narrativa compartilhada de seus personagens, representando, também, os sentimentos deles com relação àquele momento específico.
O filme selecionado para análise é “Felizes Juntos”, de 1995, estrelado por Tony Leung e Leslie Cheung. O filme nos apresenta um casal homossexual que possui uma relação - como classificamos hoje em dia - tóxica. Lai Yiu-Fai (Leung) e Ho Po-Wing (Cheung) estão sempre brigando e “recomeçando”. No filme, que é narrado majoritariamente por Lai, acompanhamos uma das tentativas de recomeço, em que o casal viaja de Hong Kong para a Argentina com a pretensão de visitar as Cataratas do Iguaçu, mas, já no país sulamericano e na tentativa de chegar às cataratas, se desentendem e a tentativa de recomeço falha. Cada um segue um rumo, sem dinheiro para voltar ao país natal, e acompanhamos essa separação e a reaproximação turbulenta - turbulência essa representada, em vários momentos, por uma câmera instável e trêmula.
Os momentos da relação do casal protagonista são refletidos de forma brilhante pelas cores saturadas - ou na ausência delas, como é o caso das cenas em preto e branco. Primeiramente, as cores supersaturadas (destaca-se o verde e o amarelo, mas também percebe-se o vermelho e o azul bem pontuais) narram ao espectador os momentos de maior conciliação do casal - não necessariamente momentos harmônicos; há entre os dois o mínimo de companheirismo. Com o segmento preto e branco, percebemos a falta de afeto entre os dois, a separação do casal e a dor que esse afastamento provoca em cada um deles. A supersaturação das cores se mistura aos ambientes sujos de uma Buenos Aires nada turística, nos passando um ar de insalubridade, o que traduz bem o relacionamento de Lai e Ho.
Outro grande acerto de Kar-Wai para representar a relação do casal é a metáfora do tango. Ritmo típico da Argentina, onde o filme se passa, o tango é uma dança de casal, ao mesmo tempo sensual e melancólica. Os momentos em que o casal dança tango são apenas uma trégua na constante guerra em que vivem um contra o outro. São momentos intensos e belos, onde é possível perceber o amor que sentem um pelo outro, mas a dança é sempre ambientada ou no apartamento pequeno, mofado e com pulgas de Lai ou na cozinha suja do condomínio onde ele mora; a beleza da dança é envolta por condições desfavoráveis ao florescimento da relação.
A jornada às Cataratas do Iguaçu carrega um simbolismo muito grande para a dinâmica do relacionamento de Lai e Ho. Apesar de as cores saturadas e insalubres do filme retirarem parte da beleza das Cataratas, essa maravilha da natureza não deixa de ser representada de forma imponente e impactante. Almejada pelo casal - em uma luminária, no objetivo da viagem, em uma conversa, na manutenção da luminária por Lai -, as Cataratas do Iguaçu e sua força representam uma esperança de mudança do casal. As quedas d’água são dinâmicas e a água é um elemento puro, capaz de limpar e levar para longe a sujeira. É isso que Lai e Ho pretendem, mas falham em executar. A Catarata é uma forma de “lavar” esse relacionamento, possibilitando uma real mudança, mas ambos são incapazes de chegar até ela, pois o atrito e a toxicidade parecem ser intrínsecos ao casal. Ao final do filme, Lai é o único dos dois que chega às Cataratas do Iguaçu - apesar de atitudes tóxicas para com Ho, Lai aparenta ser o único dos dois realmente disposto a mudar, enquanto Ho mantém-se como uma pessoa difícil.




